Almas Berrantes consolida uma nova etapa na pesquisa sobre o universo do circo e do teatro popular desenvolvida pelo Anônimo, dentro e fora das ruas, dentro e fora do Rio de Janeiro. Dá continuidade à pesquisa sobre a linguagem do circo-teatro iniciada com Tem Fuzuê na Cumbuca, que unia vários grupos no palco, e com Tomara Que Não Chova, que recria a estrutura clássica do circo-teatro num circo sem lona.
Com este espetáculo, iniciamos um ciclo de estréias: convidamos um diretor de fora da área do cômico, Sidnei Cruz, para conduzir uma montagem; tiramos o nariz de palhaço para encarnar dezenas de personagens e investimos pesado num espetáculo-negócio, criando um ambiente de cabaré cultural para receber o projeto.
Nosso interesse foi investigar como se formou o DNA da Lapa, que hoje como ontem era berço de malandros, prostitutas e boêmios, mas também capaz de atrair artistas, intelectuais e pensadores em torno de petiscos e uma boa calibragem etílica. O ponto de partida para o espetáculo foi o clássico A Alma Encantadora das Ruas, de João do Rio, que provoca o desejo de revisitar as casas noturnas que ficaram conhecidas como Chopes Berrantes na Lapa e adjacências no início do século XX. Textos de grandes estudiosos sobre a antiga Capital Federal e também sobre o contexto cultural do Brasil nas primeiras décadas do século XX fizeram companhia aos livros de João do Rio. Formado por quatro blocos, o roteiro inclui referências obtidas na obra de José Ramos Tinhorão, Luis Edmundo, Oswald de Andrade e, mais recentemente, Roberto Moura. Desse material foram retiradas evocações a figuras célebres da cultura popular como Eduardo das Neves, Geraldo Pereira, Tia Ciata, Carmen Miranda e outros para dar os contornos dos variados personagens em cena.
Para atender ao amplo mix de referências, o elenco incluiu na sua preparação técnica aulas de dança com o coreógrafo Édio Nunes, e de preparação vocal com Ângela Hertz. A direção musical é de Kiko Horta e o grupo Cordão do Boitatá toca ao vivo em todas as sessões. O serviço de bar com o melhor da gastronomia de botequim, esteve a cargo do ator e chef Júlio Adrião.
