A CIDADE E SEUS PRATICANTES ORDINÁRIOS NA LITERATURA DE JOÃO ANTÔNIO*

Ieda Magri
aluna do programa de pós-graduação em Literatura Brasileira da UFRJ

A opção de ler a cidade a partir dos que caminham nela e fazem desse caminhar na  rua o mote de sua existência íntima na cidade, ou daqueles que são obrigados a ganhá-la através dos trens e dos ônibus precários do subúrbio, é uma forma de reescrever, re-conceituar a cidade. Ler a cidade através dos seus “praticantes ordinários” (CERTEAU, 1994, p 171) é admitir-lhe uma outra existência que não aquela que a constituiu: o traço planejado, a limpeza, suas práticas organizadoras.

A administração funcionalista das cidades rejeita todos os detritos, as partes indesejáveis que borram a beleza que a expõe como produto. Os pobres são excluídos, rechaçados, empurrados aos guetos suburbanos, aos morros e aos interiores da face maquilada das cidades. Ainda assim, observa-se tanto num passeio pela Lapa carioca ou paulista ou por Copacabana, quanto nas narrativas de João Antônio, que as personagens demarcam seu escasso território e fazem vigorar nele suas próprias leis. Quando “caminhar é ter falta de lugar”(CERTEAU, 1994, p 183)  o caminhante  pode estar em todos os lugares e fazê-los seus no tempo em que aí está passando. Assim, os habitantes das ruas impedem que o espaço seja limpo e belo: zombam, fazem uma afronta ao espaço organizado dos moradores das casas.  E ao ganhar a rua como casa esses habitantes indesejados se afirmam como parte integrante do todo da cidade.

Se tomarmos a casa como “concha inicial, canto do mundo ao qual nos enraizamos” (BACHELARD, 1974, p. 357), veremos que as personagens de João Antônio comumente têm seu canto construído na rua ou no espaço habitado pelos seus pares como a sinuca e a casa de prostituição. Estão expostas ao mundo sem um “não-eu” que as proteja. O guardador de carros encontra seu lugar de morar no oco de uma árvore: “Dera, nesse tempo, para morar ou se esconder no oco do tronco da árvore, figueira velha, das poucas ancestrais, resistente às devastações que a praça vem sofrendo.” (ANTÔNIO, 1992, p 49) Mas se pensarmos, com Certeau, que “a errância, multiplicada e reunida pela cidade,

faz dela uma imensa experiência social da privação de lugar”, (CERTEAU, 1994, p 183) veremos que o guardador encontra seu refúgio, um arremedo de casa, como as outras personagens, num lugar que é dele e de todos ou de ninguém ao mesmo tempo.

João Antônio escreveu em seus livros algumas das transformações sociais trazidas pela modernidade e suas conseqüências para o indivíduo. Percebe-se certa dor e ternura na escrita das histórias de homens e mulheres que antes se afirmavam na malandragem e agora se tornam os bandidos. No livro Ô Copacabana, o autor não cessa de nos mostrar o desenfreado processo de urbanização, o inchaço das cidades que não têm infra-estrutura para receber tanta gente, o descaso dos governos com o indivíduo que desistiu de acreditar na melhoria da situação de vida. Há uma desconfiança enorme da promessa de progresso: “Na Praça dos Paraíbas fervem, enquanto o progresso não vem, botecos xexelentos, de uma portinha só. Apertados, abafados, fedidos, do tipo engasga-gato para receber vizinhando o desemprego, o lúmpen, o provisoriado. O zero.” (ANTÔNIO, 2001, p 69).

O espaço é visto e percorrido por João Antônio de forma a devolver a cidade aos malandros, merdunchos e bandidos: eles têm pleno domínio dela e são os que se sentem em maior segurança nas suas perambulações. Desta forma, as andanças pelas ruas reais das duas grandes cidades brasileiras (São Paulo e Rio de Janeiro) obrigam o leitor a pensar-se como parte dessa organização desorganizada. Obrigam-no a implicar-se nos problemas sociais urbanos brasileiros. É impossível sustentar-se como voyeur neste percurso. “Quantos cantos e extremos, além de quatro, terá essa cidade que ninguém sabe quantos cantos tem?” (ANTÔNIO, 2001, p 100).

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