Imaginar uma estética (se o termo não estiver por demais depreciado) baseada até o fim (completa, radicalmente, em todos os sentidos) no prazer do consumidor, qualquer que ele seja, qualquer que seja a classe, qualquer que seja o grupo ao qual pertença, sem acepção de culturas e linguagens: as conseqüências seriam enormes,
talvez mesmo dilacerantes.(quanto mais cultura houver, maior, mais diverso será o prazer)
Roland Barthes
O capital simbólico costuma ser, na sociedade atual, um meio de discriminação social. Entende-se que este dado, por si só, sustente a necessidade de ampliação de públicos nos circuitos de difusão de uma arte não-mercadológica já que alguns segmentos, envolvidos com problemas de ordem social tais como alimentação, segurança e moradia, não reivindicam de imediato a sua inclusão nas políticas artísticas e culturais.
Falando-se de acesso à cultura vislumbra-se de imediato a necessidade de se fazer uma investigação acerca dos usos do termo cultura e suas relações com as novas formas de recepção inauguradas pelo consumo e pela ascensão da indústria cultural, tentando perceber, na situação contemporânea, o novo público receptor das artes e consumidor cultural.
A discussão em torno dos termos cultura de massa, cultura popular ou cultura erudita tornou-se, nas últimas décadas, um problema de difícil acomodação tanto nas discussões acadêmicas quanto nos círculos artísticos. O termo cultura, segundo Williams (1992, 13), é complexo devido à gama de definições que o compõe. Por um lado tem-se o termo no sentido antropológico e sociológico e por outro, no de as artes ou as manifestações artísticas. Para Williams “há certa convergência prática entre os
sentidos antropológico e sociológico de cultura como ‘modo de vida global’ distinto (...) e o sentido mais especializado, ainda que também mais comum, de cultura ‘como atividades artísticas e intelectuais”.
A palavra arte é ainda mais difícil de ser conceituada de forma sucinta (já que não é o objetivo aqui discutir largamente todas as implicações do termo). Só o dicionário Houaiss, traz 25 verbetes para significar a palavra: desde a tradição filosófica platônica em que designa "habilidade ou disposição dirigida para a execução de uma finalidade prática ou teórica, realizada de forma consciente, controlada e racional", passando pela tradição aristotélica como "conjunto de meios e procedimentos através dos quais é possível a obtenção de finalidades práticas ou a produção de objetos; técnica", até o uso regional em que significa travessura. Por ser o significado que mais se aplica ao uso do termo neste artigo e mesmo sabendo de toda a problematização dos conceitos implicados nesta definição, gostaria de reter o verbete incluído na rubrica estética: "produção consciente de obras, formas ou objetos voltada para a concretização de um ideal de beleza e harmonia ou para a expressão da subjetividade humana".
Informalmente, o termo arte é mais usado no terreno das artes plásticas e o termo cultura para designar todas as outras manifestações. Por conseqüência, arte estaria no terreno do erudito, enquanto que cultura, no do popular. No entanto, a palavra artista não designa apenas o especialista das artes plásticas: para o grande público a palavra está mais próxima dos atores popularescos da mídia massiva.
Neste artigo, uso o termo cultura como maior que arte no sentido de que engloba todos os tipos de arte, seja popular, massiva ou erudita. Desnecessário dizer que aqui não vai nenhum julgamento de valor.