Gestão para autonomia e produção cultural: Observatório 2007

Por Flávia Berton

Em 2004 começamos a trabalhar com o tema da gestão e da produção, através de uma oficina. O objetivo era transmitir nossas idéias e as ferramentas que utilizamos para realizar o trabalho de planejamento e organização de nossos projetos.

O resultado foi bem gratificante, recuperamos conceitos utilizados ao longo de nossa história, muito por conta das consultorias que recebemos ao longo desses anos. A maior  contribuição na área de gestão foi a de Cléia Silveira e Lorenzo Zanetti, integrantes de um núcleo da FASE chamado SAAP , de apoio a organização de pequenos grupos. Com eles entendemos os mecanismos de construção de uma gestão coletiva e da organização interna. Não podemos esquecer das trocas de figurinhas com os grupos amigos: Galpão, Lume, Pepe Nuñez , Parlapatões, Patifes e Paspalhões. Outra importante contribuição para essa construção foi a formação do João em produção, que se deve ao seu trabalho no Centro de Produção Cultural da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro durante 10 anos. A última ação nesse sentido foi o meu ingresso no MBA em Gestão Cultural da Universidade Cândido Mendes.

Aprendemos ao longo desse tempo, a construir mecanismos de organização que vão além da confecção e produção de projetos: a missão, o planejamento estratégico e a análise de ambiente são ferramentas do trabalho cotidiano, úteis para o desenvolvimento da cadeia produtiva que envolve a criação, a exibição e a difusão para aos poucos conquistar a bendita autonomia que a gente tanto apregoa. Sempre partimos da gestão compartilhada para a produção.

Hoje em dia com tantos cursos de produção por aí, os artistas em geral, dominam os mecanismos da produção, mas a gestão compartilhada precisa ser discutida e experimentada pelos grupos. Entendo que a gestão necessita de uma elaboração sistemática de estratégias desenhadas coletivamente e de uma eficiente conjugação de recursos econômicos e financeiros,

SAAP – Serviço de Análise e Apoio a Projetos

Atualmente integra o grupo Pé de Vento Teatro – Florianópolis (SC) a fim de criarmos uma realidade sustentável e autônoma, além de elementos que contribuam para a construção de políticas para cultura.






Não temos modelos, receitas de bolo, prontas pra serem usadas... Puxa, bem que eu gostaria! Mas, concluo que é importante que este trabalho seja prioritariamente dirigido a grupos que, como o Anônimo, lutam por sua sustentabilidade, passando pelas leis de incentivo, bilheteria, organização de festas e venda de espetáculos para empresas e estatais. A nossa experiência pode ser muito rica para um outro grupo, mas também o é para quem está buscando se organizar melhor como profissional.

“...podem ter certeza que vocês despertaram dentro da gente essa necessidade de valorizar mais o nosso trabalho e fazer com que ele cresça, aplicando essas metodologias.”

A intenção deste texto é relatar a experiência dessa oficina no ano de 2007 quando participamos da edição especial de comemoração de 10 anos do projeto Palco Giratório promovido pelo SESC Nacional, um projeto de difusão ímpar no cenário das artes cênicas do país. Percorremos as cidades de Petrolina, Crato, Salvador, Campina Grande, Porto Alegre, Macapá e Brasília, essa última a convite do Ponto de Cultura da Cooperativa Brasiliense de Teatro. Pode-se dizer que foi o ano em que esta oficina saiu do estado do Rio de Janeiro, onde desde o início realizamos 10 oficinas em nossa sede, e outras duas em Angra dos Reis e Friburgo.

Em simples relatos dos alunos e respostas a perguntas feitas nas oficinas, podemos ver que cidades como o Crato e Campina Grande tem mais de 10 grupos de teatro funcionando há mais de 5 anos. São grupos formados em sua maioria por ex-estudantes da área de comunicação e artes, isso porque não há faculdades de teatro em muitos estados do Nordeste e do Norte do Brasil, restando aos estudantes os cursos de comunicação ou artes visuais. Vou destacar algumas realidades que valem a pena ser discutidas por nós, que nos propomos fazer cultura nesse país:

O Brasil profundo... Macapá, julho de 2007

Depoimento de Wellington, 18 anos, acadêmico de Artes Visuais – Macapá - AP