Almas Berrantes é a terceira experiência cênica de um programa de trabalho liderado pelo Teatro do Anônimo, provisoriamente chamado de montagem incubadora de gêneros teatrais populares. As duas experiências anteriores, sempre com a criação musical do Cordão do Boitatá, resultaram nos seguintes espetáculos: Tem Fuzuê na Cumbuca (2001)* e Tomara que Não Chova (2002).**
A presente montagem envolve uma variedade de gêneros teatrais populares. Está ancorada em procedimentos cênicos encontrados nas comédias de Aristófanes, de Plauto, no teatro de feira, nos jograis, nos goliardos e clérigos vagantes da Idade Média, nas diatribes de Ângelo Beolco, nas improvisações e tipos carnavalizantes da Commedia dell 'arte, nos vaudevilles, no music-hall, no circo, nas Burletas e Revistas de Arthur Azevedo, nas óperas-baladas de Brecht/Weill, no Agit-prop de Piscator, no circo-pavilhão de Eduardo das Neves e Benjamim de Oliveira, nos cafés cantantes, no teatro Rebolado de Walter Pinto e Carlos Machado, no teatro musical de Luiz Antonio Martinez Corrêa, no teatro musical popular e nordestino de Luiz Mendonça e outras experiências enfezadas e indomesticáveis da cultura popular tradicional dos “brasis” e, para simplificar, nos ditirambos e entrudos de ontem, de hoje e de sempre. Despretensiosamente, a montagem é uma maturação artística inspirada nos lendários "chopes berrantes" que no início do século XX se espalhavam pelo centro do Rio de Janeiro. Barulhentas casas noturnas que ofereciam diversão e cenas de variedades acompanhadas de bebida e de comida. A rua e o salão de dança formavam um ambiente único, diferenciados apenas pelo contraste entre a luz externa da lua seresteira e a iluminação embaçada dos lampiões de cabaré. A riqueza comunitária desses ambientes era a proximidade entre público e artistas, palco e platéia, instaurando uma espécie de "comunicabilidade safada e interativa”.orquestrada por uma legião de tipos representativos do imaginário de todas as cidades de todos os tempos e culturas: malandros, vedetes, vigaristas, prostitutas, cornos, sambistas, domadores de macacas, trapezistas, dançarinas de inferninhos, desocupados, intelectuais em formação, amantes inveterados, notívagos, emboladores, capoeiristas, românticos, lavadeiras, pregões e eguns.
Revisitar o ambiente formador de um tipo de dramaturgia da boêmia, circunscrevendo a ação teatral por uma extensão geográfica denominada miticamente como Lapa, com certeza não é uma tarefa fácil. O desafiador é fazer esse embrião do teatro com raízes populares, promover uma reorganização espetacular a partir de elementos da história cultural do Rio, mostrando personagens e situações sem a preocupação de fazer uma descrição linear, realista ou historicista. É claro que algum fio condutor costura as fronteiras entre os quadros autônomos. A sucessão vertiginosa de cenas que são ligadas por motivações, algumas vezes são ancoradas através dos contrastes ou desvios temáticos e, outras vezes, através de reafirmações, complementos ou fusões das situações. Então, através dos elementos estruturais predominantes do teatro de revista, do circo, do show, do teatro rebolado, do strip-tease, da gafieira, da piada, da caricatura e da sátira, aos poucos a atmosfera, o espírito descontraído e moleque do carioca vai tomando conta do ambiente.