Pode-se dizer que a primeira incursão dos pobres na literatura se deu com o surgimento do Realismo: na metade do século XIX, quando o proletariado começa a se distinguir da burguesia e a exigir seu espaço na sociedade. Esse despertar da consciência de classe dá lugar à várias teorias (o positivismo, o determinismo, o cientificismo) e a um movimento artístico ativista que exige uma utilidade social para a arte. A literatura então, passa a preocupar-se com o social fixando seu tema no real e no homem comum assoberbado por problemas do cotidiano. Antes disso, o homem comum não era digno de matéria literária, buscava-se o tema dos grandes livros num homem idealizado, exemplar. A personagem realista deixa de ter esse peso da moralidade e da exemplaridade para carregar consigo a contradição da natureza humana e, principalmente, seu modo de viver, sua cultura e sua luta pela sobrevivência. Revela-se pela primeira vez, o conflito do herói com a ordem social burguesa. O papel do escritor é observar, com rigor científico, o modo de ser e de viver do homem comum.
Em lugar de heróis, surgem pessoas comuns, cheias de problemas e limitações. Na Europa, o realismo teve início com a publicação do romance realista Madame Bovary de Gustave Flaubert e que resultou num escândalo ao ser publicado em 1857. Quando o livro foi lançado, houve na França um grande interesse pelo romance, pois levou seu autor a julgamento. O romance conta a história de Emma, uma mulher sonhadora, pequeno-burguesa criada no campo que aprendeu a ver a vida através da literatura sentimental. Bonita e requintada para os padrões provincianos, casa-se com Carlos, um médico interiorano tão apaixonado pela esposa quanto entediante. Nem mesmo o nascimento da filha dá alegria ao indissolúvel casamento ao qual a protagonista se sente presa. E, passional, passa a aceitar o cortejo de outros homens e entrega-se tanto e de maneira tão ingênua ao amor que acaba por se suicidar.
Pode-se citar vários outros autores como Emile Zola, Guy de Maupassant e Eça de Queiroz.
Mas o que nos interessa é a incursão do pobre na literatura brasileira. No Brasil, o ícone do Realismo é o romance O cortiço de Aluísio Azevedo, escrito em 1889. O autor retrata a vida dos moradores dos primeiros cortiços do Rio de Janeiro, ainda no período da escravidão. O que nos toca é a ascensão do português, dono do cortiço e o empobrecimento de seus inquilinos. O capitalista é retratado como homem que não mede esforços para enriquecer e que não tem escrúpulos em tomar o que pode de seus inquilinos. Assim é com a feirante negra que toma para si como mulher e que é escrava. Ele faz com que trabalhe no armazém que abastece o cortiço e na rua como feirante e lhe dê todo o dinheiro que ganha para pagar sua liberdade. Dá a ela uma carta falsa e, às vésperas da abolição, devolve-a ao seu dono. Ela, diante do terror de perder a liberdade acaba se suicidando. Aluísio Azevedo faz, nesse romance, uma pesquisa dos tipos que compõe a sociedade brasileira: a mulher negra e escrava, o imigrante português que domina e explora os mais pobres do que ele, a mulata baiana bonita, fogosa e boa cozinheira, o malandro capoeirista e tocador de sambas, o português trabalhador e amante dos fados que aos poucos se rende ao samba e à malandragem brasileira, as lavadeiras, as prostitutas.
Antes, um outro romance brasileiro havia se ocupado da descrição de um tipo que caracterizava a sociedade brasileira: o malandro. Foi Memórias de um Sargento de Milícias e se passava em 1808, quando da vinda de D. João IV ao Brasil. O autor, Manoel Antônio de Almeida se ocupa em descrever os costumes brasileiros, a macumba, as festas populares, o carnaval, os mandos e os desmandos da nossa insipiente justiça e a vagabundagem de Leonardo que depois de errar muito, por causa de certos favores, acaba por escapar da cadeia e ainda vem a ser sargento. Escrito, porém, em 1855, dentro dos padrões do romantismo, tudo acaba bem, o malandro torna-se herói e tudo se ajeita.